O colapso do marxismo

23 de fevereiro de 1989
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 Pio XI, o inesquecível Papa da Ação Católica, das missões e do Tratado de Latrão, afirmou que “o comunismo é intrinsecamente mau”. O que o consolidador da doutrina social da Igreja, inaugurada por Leão XIII, condenava basicamente no comunismo aplicado na Rússia era a crueldade anticristã do terrorismo stalinista, a negação da liberdade e da dignidade do homem, a propagação do ódio e da intolerância e a iniquidade de um sistema baseado na força e no desafio às leis de Deus.

Decorridos 60 anos, os próprios descendentes daquela geração heróica e sacrificada e os sucessores do tirano vermelho denunciam ao Mundo o elenco de horrores que aniquilou tantas vidas, tantos valores e tantas esperanças. E o próprio Mikhail Gorbatchov. São funcionários, teóricos, intelectuais e artistas unidos sob a aragem benfazeja da perestroika que estigmatizam o passado de erros e crimes que até então permaneciam ocultos pela manutenção do terror e da repressão.

Outras revisões e mudanças estão ocorrendo em outras plagas, onde se impôs, pela violência, a panaceia marxista-leninista. Da China, dentro do clima de liberalização após Mao, nos vem a afirmação dos escritores Bia Hua e Wang Huafang e do astrofísico Fang Lizhi, confirmando que o balanço do socialismo na China é um “clamoroso fracasso”. Eles adiantam ainda que o marxismo-leninismo tem seu lugar na evolução da Humanidade, como tantas outras correntes de pensamento, mas “seu espírito e seus ideais morreram”. A Polônia está em ruínas e a classe operária revoltada exige mudanças na economia estatizante. Idem em outros países da Europa Central. Na Itália, os comunistas planejam coligar-se com os socialistas para adotarem um programa comum de renovação que promova seu ajustamento à nova revolução liberal que sacode o mundo moderno. Os PCs de Portugal, Espanha e França se desagregaram e procuram outros caminhos para acompanharem a onda de modernização que imporá a paz e a justiça de um Mundo que será totalmente novo no Século XXI.

No Brasil, os prosélitos da chamada Nova República ainda sonham com a miragem estatocrática e socializante que se implantou na Europa nos últimos cem anos. O Manifesto de 1848 ainda é a bíblia de muitos intelectualóides que vagam ociosos pelos corredores das universidades brasileiras. Os tecnocratas e milicratas que se apoderaram da máquina administrativa ainda se guiam pelos discursos de Mustafá Kemal, de Primo de Rivera, de Mussolini, de Hitler, de Nasser e de tantos outros mistagogos cujas teorias nada mais representam no Mundo atual, que está se libertando das querelas sociais e políticas iniciadas no Século XIX.

O Governo fraco e ilegítimo que se implantou por um acordo espúrio entre os agentes da ditadura e suas vítimas mais notórias se esvai sem autoridade e sem competência. O Brasil se afunda no nada, sem rumo definido, vítima da ruína das suas instituições políticas e da anemia aguda dos seus quadros dirigentes.

A oposição, dita de esquerda, é representada por grupelhos de incompetentes que se inspiram nas ditaduras sangrentas do Caribe que, ao lado dos impostores de Paraguai, Panamá e Chile, ainda infestam o continente sul-americano com o vírus da corrupção e do liberticídio.

Urge, sim, convergir para a liberalidade, para a integridade e para a competência, mas com o sólido programa de revisão dos princípios fascistóides que ainda dominam o serviço público brasileiro.

Com um projeto de governo que extirpe o cancro inflacionário pela raiz, cortando, sem piedade, o déficit público e renegociando a dívida externa que nos obriga a emitir, cada vez, uma quantidade maior de papel-moeda para remunerar os exportadores e manter o Cruzado em perene processo de desvalorização, urge, sim, convergir para a liquidação da ilicitude que aviltou a máquina, principalmente nas estatais como a Petrobrás, onde quadrilhas de funcionários gatunos se digladiam para embolsar as propinas decorrentes de aplicações financeiras ilícitas. Convergir para reduzir Ministérios, tirar os recursos da Previdência da mão de politiqueiros corruptos para os cofres da Fazenda. Convergir para inverter prioridades, plantar para os pobres comerem, aplicar recursos no saneamento básico, na educação e na saúde. Financiar a pesquisa e investir na inteligência. Tirar os assalariados da condição miserável e injusta em que vivem, em proveito de governantes venais e empresários ambiciosos, beneficiários dos subsídios e das tetas gordas da máquina pública.

O marxismo está morrendo. Devemos igualmente sepultar o amoralismo, a ineficiência e a cupidez que infestam o poder no Brasil, para fortalecer o liberalismo.

Somente a definitiva e sólida união dos Estados com a Nação modernizará o País.

Depois de 15 de novembro, o povo brasileiro precisa enxergar outros caminhos para consolidar o desenvolvimento com liberdade.

 

 

Publicado no jornal O Globo, de 23/02/89

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